29 de Junho de 2009

Fragmentos ao vento.

Gradativamente, fui vendo mais claro, aprendi um pouco do que sabia. Até então, tinha sido sempre ajudado por um espantoso poder de esquecimento. Esquecia tudo e, em primeiro lugar, as minhas resoluções. No fundo, nada contava. Guerra, suicídio, amor, miséria, prestava atenção nisso, é claro, quando as circunstâncias me obrigavam, porém de maneira cortês e superficial. Às vezes, fingia apaixonar-me por uma causa estranha à minha vida mais cotidiada. No fundo, porém, eu não participava dela, exceto, é claro, quando minha liberdade era contariada. Como dizer-lhe? Tudo isso resvalava. Sim, tudo resvalava por mim.

_____________________________________________________________________

Sejamos justos: acontecia serem meritórios os meus esquecimentos. Já notou que há pessoas cuja religião consiste em perdoar todas as ofenças, e que efetivamente as perdoam, mas nunca as esquecem. Eu não era feito de matéria que me permitisse perdoar as ofensas, mas acabava sempre por esquecê-las.

_____________________________________________________________________

Sobretudo, não acredite nos seus amigos quando lhe pedirem que seja sincero com eles. Só anseiam que alguém os mantenha no bom conceito que fazem de si próprios, ao lhes fornecer uma certeza suplementar, que extrairão da sua promessa de sinceridade. Como poderia a sinceridade ser uma condição da amizade? O gosto pela verdade a qualquer preço é uma paixão que nada poupa e que nada resiste. É um vício, às vezes um conforto, ou um egoísmo. Portanto, se o senhor se encontrar neste caso, não hesite: prometa ser verdadeiro e minta o melhor que puder.

_____________________________________________________________________

Não nos perdoam a nossa felicidade, nem o nosso sucesso, a menos que se consinta generosamente em reparti-los. Mas, para ser feliz, é preicso não se envolver demias com os outros. A partir daí, as portas se fecham.

_____________________________________________________________________

Meu caro amigo, não demos pretexto para nos jugarem, por pouco que seja! Caso contrário, nos deixam em pedaços. Somos obrigados às mesmas precauções que o domador. Se ele tem a infelicidade antes de entrar na jaula, de cortar-se com a navalha, que banquete para as feras! Compreendi isso num relance, no dia em que me ocorreu a suspeita de que, talvez, eu não fosse tãodigno de admiração. A partir de então, passei a ser desconfiado. Ja que sangrava um pouco, estava totalmente perdido: iam devorar-me.




in: A Queda, Albert Camus

19 de Abril de 2009

Re-pensar.

É a mesma sensação: a de não enquadramento. Sentia-me infeliz e acreditava que escondendo até de mim mesma meus pensamentos sombrios e reflexivos eu ficaria melhor. Agora sinto que tudo está perdido, que não haverá mais volta. Vejo a multiplicidade dos caminhos. Alguns, arrebatam-me o sono e os sonhos. Outros, sinto latejar dentro de mim a espera de uma palavra: o sim. O mesmo sim que destrói esperanças de horas melhores. O mesmo sim que pouco a pouco faz desabar algumas de minhas forças, no sentido de tentar fazer com que as coisas caminhem relativamente bem até o final desse período. Final que visualizo com temor e torpor. Será que me sobrará forças pra recomeçar, para compreender o novo, para me permitir ser amparada com o devido cuidado que jamais senti nesse lugar? Era a mesma sensação: não era ali meu lugar, nunca o fora. Agora percebo com toda a agonia. Preciso me desfazer. Redescobrir-me, reencantar-me e refazer-me em outros espaços onde eu possa ter liberdade de sentir, de fazer, de poder, de ser. Essa descoberta um pouco tardia é o que mais machuca. Na verdade, tem tanta coisa que machucando tanto que é no âmbito das impossibilidades pesar o mais e o menos.

10 de Abril de 2009


É sempre a mesma sensação: a de que já vivemos tudo, já sentimos tudo, já entregamos tudo. Demoro a perceber se nos resta algo no qual possamos nos apoiar. Às vezes a queda se principia e nunca a senti tão perto. É essa presença contínua que me escapa por entre os dedos e sobre a qual já nada posso fazer que me tira o sossego. Teremos coisas bonitas para contar? Já não tenho forças - o cansaço me rouba qualquer possibilidade de futuro. Faz alguma diferença agora?
.
.
Tanto tempo pra pensar
Mas no meio na correria acho que não deu
Eu tentando consertar a nossa história
Mas sem a sua ajuda, não aconteceu
.
Acontece que se fosse esperta
E desse tempo ao tempo
Não seria assim
Sugando tudo o que tenho de forças
Eu ja não estou querendo mais você pra mim
.
Infelizmente é assim
Termina-se uma história
Que a gente mal começou
Se tomasse cuidado com meus sentimentos
Talvez meu coração ainda fosse seu
.
Esse final não me agradou
E o nosso entendimento
Não aconteceu
Eu que lutei um dia pra te ter ao meu lado
Agora eu te confesso
Quem não quer sou eu
.
Fui eu quem te dei
O primeiro beijo
O primeiro toque
A primeira canção
.
Se realmente quer ficar comigo
Não faz bola de meia com meu coração
Tanto tempo, tanto tempo
.
.
Seu Jorge

21 de Março de 2009

Tem dias.

Photobucket


Graça Loureiro

Tem dias que a gente se sente
Como quem partiu ou morreu

A gente estancou de repente
Ou foi o mundo então que cresceu

A gente quer ter voz ativa
No nosso destino mandar

Mas eis que chega a roda-viva
E carrega o destino pra lá


(Chico Buarque)


19 de Fevereiro de 2009

De hoje.

GraçaGraça Loureiro


Apesar disso, não era feliz, nunca o fora. 
De onde vinha, pois, aquela insuficiência da vida, 
aquele apodrecimento instantaneo das coisas em que se apoiava?




Cada sorriso ocultava um bocejo de enfado,
 cada alegria uma maldição, 
todo prazer o seu desgosto

(...) 



Gustave Flaubert
[Madame Bovary]




3 de Fevereiro de 2009

Os sintomas do amor são os mesmo do cólera.

Photobucket




Coisa bem diferente teria sido a vida para ambos se tivessem sabido
a tempo que era mais fácil contornar as grandes catástrofes matrimoniais
do que as misérias minúsculas de cada dia. Mas se alguma coisa haviam aprendido
juntos era que a sabedoria nos chega quando já não serve para nada.

______________________________________________________


É claro que o incidente lhes deu a oportunidade de evocar
outros arrufos minúsculosde outras tantas manhãs perturbadas.
Uns ressentimentos mexeram em outros,
reabriram cicatrizem antigas, transformaram-na em feridas novas,
e ambos se assustaram com a comprovação desoladora
de que em tantos anos de luta conjugal não tinham feito mais do que pastorear rancores.

______________________________________________________


Mesmo quando já velhos e apaziguados,
evitavam evocá-la, porque as feridas mal cicatrizadas
voltavam a sangrar como se fosse de ontem.


Gabriel García Márquez
[ O amor nos tempo do cólera]


Esse é o meu maior medo.

4 de Janeiro de 2009

De 2008.

Photobucket

Eu já fui de uma sensibilidade estonteante. Sempre acreditei ser uma personagem clariciana e já me orgulhei muito disso. Orgulhava-me de ter no peito alguns [hoje eu descobri que não eram todos] os sentimentos do mundo. Nunca fui de acreditar na leveza das coisas, até porque tudo sempre me pesou de tal maneira que muitas vezes mal pude respirar.
E de fato não respirei. Olho para mim e confesso que não sei o que fazer com o que sobrou desse tumultuado ano. Já tive [muitas] lágrimas sinceras nos olhos e ouvir que elas não comoviam mais foi a pior dor desse ano que ficou pra trás. Estava previsto: do vidro mais vagabundo era meu conteúdo. É verdade, eu sei, quebro com facilidade. Digo vagabundo porque ele quebra em milhões de pedacinhos e é difícil recuperar a sua forma. Agradeço a analogia, nunca encontrei uma que coubesse tão perfeitamente na minha fragilidade. Olho para mim e tenho medo. Tenho medo de ficar sozinha com meus pensamentos - alguns ainda me assustam ou/e me levam ao desespero. Sussurro palavras de esperança baixinho para me convencer de que "a vida é possível" ainda.Tenho evitado até escrever aqui, desenhar sentimentos no absurdo. Mas agora estou um pouco mais calma. Parece que finalmente as coisas estão voltando ao seu lugar. E já não era tarde.